23 Fev
Viseu

Ricardo Bordalo

OPINIÃO

Os nabos

"Qualquer um se recorda de um punhado da autoria dos nabos"

14 de Fevereiro de 2020, 00:00

CLIPS ÁUDIO

Em 2007, Paulo Portas, antigo líder do CDS, para vincar o quanto para ele era, à época, importante o dia do trabalhador, lembrou-se de dizer que “o trabalho liberta”. Os nazis pensaram o mesmo quando, nos portões dos seus campos de concentração,com trágica ironia, escreveram “arbeit macht frei”, o mesmo que Portas disse mas em alemão, sendo a mais icónica a frase colocada no portão de Auschwitz, onde, entre 1939 e 1945 morreram pelo menos 1,1 milhões de pessoas. Dizer que Portas, o mais hábil – dizem – político português se distraiu, é fazer da malta um caramanchão de tontos.

A ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque, foi a Berlim, antiga luz do Reich - lamento, mas, mesmo sabendo que é obviamente uma infeliz coincidência, a relação geográfica da coisa é tão importante para esta prosa como a agricultura para os seus personagens – dizer que a tragédia que varre a China com a pandemia de coronavírus a matar milhares, pode ser “muito positiva” para as exportações agrícolas portuguesas.

Depois tentou corrigir o tiro, mas, nestas coisas, é o mesmo que ir atrás da bala para a apanhar antes de atingir o alvo, mesmo que esta esteja a seguir o seu trajecto a mais de 1000 metros por segundo. Como se sabe, o arrependimento não se move a mais de 12 centímetros por hora, à sua velocidade máxima!

Noutro tempo, o génio da lâmpada do bem pensar de Campo de Ourique, Vasco Pulido Valente, perguntado na TV sobre se sabia dizer o valor do salário mínimo nacional, respondeu com um monumental disparate e indicou, ainda em contos de reis, o mesmo que pagava pelo bife diário que almoçava à época num fancy restaurante lisboeta. Qualquer um de nós se recorda de um punhado de tiradas deste calibre da autoria de muitos dos nossos nabos.

Só há uma pequena diferença entre estes exemplos: O Paulo não sabe nada de trabalho – e nunca foi ministro dos operários - o Vasco acha que é a chuva que limpa as ruas de Lisboa – e não foi ministro dos pobrezinhos – enquanto a Maria é a ministra dos agricultores que podem exportar mais para a China se o coronavírus matar mais um bocadinho ainda. Ahh, e é a única que pode ser demitida, mas – hoje é 09/02/2020 - não o foi ainda…